segunda-feira, 15 de agosto de 2016

As Origens do Horror Moderno

Até o final dos anos 1950, o cinema clássico narrativo pautava-se pelo famoso "happy ending": os filmes tinham que necessariamente terminar com um final feliz. Esta convenção tinha como princípio ativar a consciência moral do espectador e fazê-lo agir no mundo concreto pelo exemplo regenerador do plano simbólico. No gênero de Horror não era diferente, por mais que a ameaça fosse aterradora, no final tudo voltava à normalidade inicial e mocinho e mocinha viviam felizes para sempre.

Com os avanços da psicanálise e as novas descobertas científicas, as artes passaram a ser vistas como uma forma de "canalizar a violência, satisfazer as disposições do imaginário, liberar fantasias, enfim "descarregar" os impulsos considerados inevitáveis, como uma válvula reguladora"¹. No cinema de Horror a função social do espetáculo começou a mudar em 1960, quando o mestre Alfred Hitchcock apresentou ao mundo o seu clássico Psicose, filme que ditaria as bases do horror moderno. Pela primeira vez no cinema, a protagonista teria um final trágico, e o tão usual Happy Ending se viu ameaçado. Além disso, a ameaça assustadora, elemento central no cinema de Horror, antes um fenômeno exterior, distante, associado ao meio rural, passou a adentrar os lares urbanos.



Com tantas atrocidades cometidas durante a guerra do Vietnã e propagadas através da televisão, não convinha mais representar os atos humanos apenas com boas ações: seu lado macabro deveria ser explicitado, e o Horror se encarregou de fazê-lo. Em 1964, H.G. Lewis, o pai do Gore, lançava o seminal Banquete de Sangue (1963), um filme polêmico e repleto de violência gráfica. 


Em 1968, em meio aos protestos por direitos civis, George Romero fortalecia o movimento de contracultura com o clássico A Noite dos Mortos Vivos, uma verdadeira obra prima do Horror moderno.
Nos anos 1990, quando os filmes de José Mojica Marins começaram a ser lançados no exterior, cinéfilos do mundo todo se espantavam com o fato de no Brasil da década de 1960 existirem filmes tão violentos e inovadores na linguagem. Com Zé do Caixão, o Brasil inseria-se no contexto moderno do cinema de Horror, e a sanguinolência estava apenas começando.


Texto escrito por Alvaro Nunes, Bacharel em História - Memória e Imagem pela UFPR e Especialista em Cinema pela UNESPAR.

Notas:
1 - XAVIER, Ismail. O olhar e a cena – Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac & Naif, p. 78, 2003.

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