Sangue, Escárnio e Sexo: o Horror brasileiro

  Grande celeiro de tradições místicas desde o período colonial, não há no Brasil nenhum cidadão que não tenha escutado uma história de horror de arrepiar, seja num círculo de pessoas em torno de uma fogueira no interior do país, seja em uma conversa de amigos ou reunião familiar na cidade. Os produtos relacionados a este gênero são recebidos no Brasil com certa avidez, seja na mídia impressa, programas televisivos, histórias em quadrinhos ou cinema. Então, por que razão, não teríamos em nosso cinema uma tradição de filmes de Horror?

 Por muitos anos, o gênero de Horror esteve praticamente invisível dentro da Historiografia do cinema brasileiro, e o famigerado Zé do Caixão, personagem criado pelo lendário diretor José Mojica Marins, aparecia como o único e solitário representante do Horror nacional. Apesar de sua contribuição inestimável para o cinema nacional como um todo, e para o  Horror em particular, o pioneiro Mojica não foi o único realizador a trabalhar com o gênero no Brasil.
  

  Pesquisas recentes têm demonstrado que o Horror está presente no cinema brasileiro desde muito cedo, em filmes como O jovem tataravô (1936), Alameda da saudade, 113 (1951), Chamas no cafezal (1954), O homem lobo (1966) e dezenas de produções que permeiam movimentos do cinema nacional desde os Policiais da fase silenciosa, passando pela Chanchada, Cinema Marginal, Pornochanchada, e continua com força no cinema contemporâneo, apoiado pelas novas mídias.

  Em sua tese sobre histórias de Horror nos filmes brasileiros, Cánepa¹  destaca que existem três tendências do gênero na cinematografia brasileira: o Horror paródico, o Horror de exploração e o Horror clássico.
 

  A Paródia possui uma presença muito forte em nossa cinematografia e, desde muito cedo, tratou de assuntos sobrenaturais e códigos consagrados do cinema de Horror de maneira muito bem humorada, pois, em um país marcado por vigorosas tradições místicas, a ameaça sobrenatural que horrorizava a cultura racionalista europeia, por aqui era recebia com certa naturalidade e até mesmo escárnio². Destaque para O jovem tataravô (1936), Fantasma por Acaso (1946) e Jeca contra o capeta (1975).
 

  O Horror de Exploração, iniciado aqui pelo mestre José Mojica Marins no início da década de 1960, busca manifestar o gênero através da cena abjeta, da mutilação, da exploração do corpo e violência sexual. Esta tendência foi bastante utilizada em filmes da Boca do Lixo, onde, para Cánepa³, foram produzidos os melhores filmes de Horror nacional. O grande representante desta tendência é o seminal À Meia Noite Levarei sua Alma (1964), e sua sequência, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), ambos de José Mojica Marins.


  O Horror clássico ou psicológico se caracteriza pela sugestão da ameaça violenta, pela reflexão, pelos dilemas existenciais, pela temática ancestral: normalmente a trama envolve segredos de família e reencarnação(4). No Brasil, esse segmento têm inicio na década de 1950 em filmes como Caiçara (1950), Meu destino é pecar (1952), Veneno (1952), Chamas no cafezal (1954) e Estranho Encontro (1958). Dentro desta tendência, destacam-se os cineastas Carlos Hugo Christensen e Walter Hugo Khouri, com seus filmes góticos e existencialistas da década de 1970. Enigma para Demônios (1975) e A Morte Transparente (1978), de Christensen, e O Anjo da Noite (1974) e As Filhas do Fogo (1978), de Khouri, são os principais representantes desta tendência nos anos 1970.

  O período mais profícuo para o cinema de Horror no Brasil compreende a década de 1970 e inicio da década de 1980, através das produções da Boca do Lixo, Movimento iniciado no final da década de 1960 em São Paulo e que manteve um intenso diálogo com o público(5), fazendo muitos filmes de baixo orçamento serem vistos por milhões de espectadores. 


  O cinema de Horror da Boca é profundamente marcado pelo Cinema de Exploração, onde erotismo e violência permeiam as produções. Nesta fase, destacam-se os realizadores Jean Garrett, com clássicos como Amadas e Violentadas (1975) e Excitação (1976), John Doo com Ninfas Diabólicas (1978) e Excitação Diabólica (1982), David Cardoso com O Pasteleiro, um Gore brutal presente na antologia Aqui, Tarados! (1980), e Luiz Castellini  com A Reencarnação do Sexo (1982).

Cena do filme A Reencarnação do Sexo (1982)
  O final da década de 1980 e início dos anos 1990 foram desastrosos para o cinema nacional como um todo, pois o colapso da Embrafilme e seu fim decretado pelo Governo Collor causou um dano incalculável para o cinema no Brasil, afetando todos os seus segmentos. Neste momento, somente realizadores de filmes de orçamento zero gravados em VHS conseguiram produzir filmes de Horror no Brasil, como o catarinense Peter Baiestorf, responsável por Zombio (1999), considerado o primeiro filme de Zumbi autenticamente brasileiro.
  

  Se a câmera de Super 8 deu independência aos realizadores do Cinema Marginal, o vídeo uma chance aos ultra independentes da década de 1990, a tecnologia das câmeras digitais, a popularização de editores de vídeo e a Rede de Computadores enquanto meio de divulgação, se apresentam como o ápice desse processo de autonomia e libertação dos realizadores frente aos tradicionais padrões de produção.
  

  Após a popularização da tecnologia digital, o cinema de Horror no Brasil ganhou novo fôlego, com ênfase mais uma vez na produção independente, através de cineastas como o capixaba Rodrigo Aragão, autor dos longas Mangue Negro (2008), A Noite do Chupacabras (2011) e Mar Negro (2013), e Dennison Ramalho, responsável por curtas premiados como Amor Só de Mãe (2003) e Ninjas (2010), além de ter atuado como assistente de direção em Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins.
  

  Esta nova geração cresceu assistindo os clássicos do cinema de Horror americano dos anos 1980, mas também mantém um forte diálogo com a tradição brasileira(6), principalmente através das produções seminais de José Mojica Marins. Um dado curioso é que, uma Sessão de TV apresentada pelo Zé do Caixão (personagem de Mojica), o Cine Trash, exibido pela TV Bandeirantes entre os anos de 1996 e 1997, teve grande influência no Brasil para formação tanto de apreciadores quanto realizadores do gênero, que possivelmente viram nos filmes de Horror de baixo orçamento que a Sessão exibia, um exemplo a ser seguido na realização de seus próprios filmes.

Morte todas as tardes: o antológico Cine Trash da TV Bandeirantes
  Esta cena tem crescido muito nos últimos anos, e já não conta apenas com produções de orçamento pífio; é o caso de filmes como Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra, exibido no Festival de Cannes, Quando eu Era Vivo (2014), de Marco Dutra, com Antônio Fagundes,  O Diabo Mora Aqui (2015), de Dante Vescio e Rodrigo Gasparin, e Diário de um Exorcista - Zero (2016), de Renato Siqueira.

  A grande maioria dos realizadores da nova geração são militantes do gênero, isto é, tem filmografia cravada no Horror, como Paulo Biscaia Filho, que além de filmes produz peças teatrais. Seu último longa, Nervo Craniano Zero (2012), é uma mistura de Horror e Ficção Científica, fórmula pouco utilizada no Brasil, mas que, mesmo em um país sem tradição científica, mostrou ser perfeitamente possível de ser executada, pois cinema é, antes de tudo, imaginação.
  

  Este breve panorama do cinema de Horror no Brasil nos mostra como o cinema brasileiro não se resume aos grandes cânones do Cinema Novo, nem aos clássicos do cinema experimental, e muito menos às famigeradas Globochanchadas. Temos, sim, uma tradição no gênero de Horror. A questão principal, como sugere Cánepa, não é discutir a existência do gênero de Horror na cinematografia brasileira, pois isto já é fato, e sim pensar no equilíbrio entre os cânones do gênero e os elementos que formam o cinema de Horror autenticamente brasileiro, considerando nossa iconografia, costumes e cultura.

Por Alvaro Nunes.

Notas:

(1) CÁNEPA, Laura Loguércio. Medo de quê? - uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Multimeios) - Instituto de Artes, UNICAMP. Campinas, 2008. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000446825. Acesso em 17 mar. 2015.
(2) CÁNEPA, L. L.. Medo de Quê? - Uma história do horror nos filmes brasileiros. 2014. (Apresentação de Trabalho/Conferência ou palestra). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zpjwsN0KK7w 
(3) Ibidem.
(4) Cánepa, Laura Loguercio. Op. Cit. 2008.
(5) PIEDADE,  Lúcio  de  Franciscis  dos  Reis.A  cultura  do  lixo: horror, sexo  e exploração  no  cinema.  2002.  222 f. Dissertação  (Mestrado  em  Multimeios) –Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas (SP), 2002.
(6) Cánepa, Laura Loguercio. Op. Cit. 2014

Referências bibliográficas:

CÁNEPA, L. L. Como pensar o Horror no cinema brasileiro. Disponível em http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/horror/ensaio-como-pensar-o-horror-no-cinema-brasileiro-laura-canepa.php?indice=ensaios
 

Medo de quê? - uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado em Multimeios) - Instituto de Artes, UNICAMP. Campinas, 2008. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000446825. Acesso em 17 mar. 2015.
 

Medo de Quê? - Uma história do horror nos filmes brasileiros. 2014. (Apresentação de Trabalho/Conferência ou palestra). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zpjwsN0KK7w

CATELLI, Rosana Elisa, Cardoso, Shirley Pereira. O cinema brasileiro contemporâneo: retomada e diversidade. Disponível em http://www.rua.ufscar.br/o-cinema-brasileiro-contemporaneo-retomada-e-diversidade/

NOGUEIRA, Luís. Gêneros Cinematográficos. Disponível em www.livrosbabcom.ubi.pt
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